0054 -Bibliotecas são florestas

Texto escrito em 29-10-2005.

Foi sexta-feira à tarde, ainda nesta semana. Estava na faculdade e precisei apanhar uns livros para consulta. Escolhi-os e solicitei à senhora atendente que os trouxesse. Com um sorriso ela perdeu-se entre as prateleiras para atender ao meu pedido.

Naquele momento, como se fosse mágica, senti-me só na biblioteca. Não havia mais ninguém ali, e pareceu-me que o tempo havia sido suspenso, sequer ouvi um ruído. O silêncio foi fundamental para que eu me desse conta naquele momento de que nada há mais sagrado do que uma biblioteca ou do que a natureza. Percebi que quando aderimos a uma causa aderimos igualmente a uma ideologia, mesmo que não nos demos conta, sinceramente, de que isso acontece. Não importa a qual delas aderimos, porque o leque é praticamente inesgotável – desde religião até movimentos sociais, desde clubes de futebol até movimentos políticos. A questão é que passamos a fazer parte de uma tribo e, portanto, a tribo espera de nós um comportamento compatível.

No entanto, em uma biblioteca não há tribos. É claro que você poderá contestar e dizer: “Como não? E os ratos de biblioteca não são uma tribo?” São sim, claro que são, mas a biblioteca em si não. Ela está lá, como a natureza, como uma árvore centenária, como uma lua perfazendo uma trajetória pendular no espaço…ela está lá, esperando, com suas obras, pelos fanáticos religiosos, pelos alunos inexperientes, pelos mestres reticentes, pelos políticos, pelas pessoas em paz e por aquelas que trazem a discórdia dentro de si.

Em uma biblioteca encontraremos basicamente todas as tendências do pensamento humano, desde frivolidades até terminalidades, estoicismos, práticas, práxis, teorias, divertimentos, dramas, comédias, tecnicismos e mesmo reticências…essa alteridade de pensamentos, de tendências e essa liberdade de escolha é algo comovedor. Em verdade, sabemos que nossas vidas resultam de nossas histórias pessoais, dos contextos culturais onde vivemos e de nossas suaves tessituras narrativas.

Somos, mutatis mutandis, humanamente imprevisíveis e somente essa condição nos proporciona a capacidade de vivermos. Por isso nossa pessoalidade não pode dispensar uma estrutura narrativa.As bibliotecas existem para todos os que dela queiram ou possam dispor (nem sempre isso é possível), e a ela afluem pessoas que não são exatamente “ratos de biblioteca”.

Diferentemente, por exemplo, de uma torcida de futebol. Um atleticano não irá nunca aceitar um colorado entre as suas fileiras, mas eles poderão se encontrar numa biblioteca.Uma biblioteca não exige, não cobra, não pede sequer coerência. Uma biblioteca não é de uma tribo, mas de todas as tribos…abre-se como uma miríade de possibilidades representadas em seus livros e, se pede algo, é apenas cuidado. Mas, como já escreveu Peninha e Caetano cantou, “quem ama cuida”. HILTON BESNOS

 

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