0064 – Sobre a vida

Não raras vezes buscamos, procuramos, saímos à cata, conversamos, descontraidamente ou não, a respeito do que imaginamos ser o “sentido da vida” – assim mesmo, aspeado, para mais ressaltar tal expressão que tanto motivou e motiva a todos de modo geral e a filósofos e pensadores de modo mais próximo, deixando a cada qual que a interprete na conformidade de suas vivências e trazendo sempre novas possibilidades de indagação. Há fatos que ocorrem no bojo do que denominamos senso comum, entendido como o pensamento do cidadão médio, e que integram o saber ou sabedoria populares que em boa parte fundam-se no empirismo. Muitos desses saberes explicitam-se pelos “ditados populares”, cuja abrangência limita-se tendo em vista as culturas e as historicidades dos seus autores. Quando dizemos que as pessoas devem ter um meio legal ou legítimo que aponte de onde vem o seu suporte financeiro, estamos referindo-nos ao senso comum e que o direito consagrou. Contudo há situações que não estão dentro do previsível e que nos fazem refletir profundamente a respeito da existência de um cerne, anima, alma metafísica que imprime a vida uma qualidade que não nos é perceptível, menos ainda apreendida. Essa essência que transcende o comum, interage constantemente com o imprevisível, de um lado, e o esperado, de outro, com a infortunística e com o senso-comum, com o destino (se assim quisermos chamar) e com o sabido, o acaso e o rotineiro. Seria razoável se representássemos a vida por um símbolo ying-yang ou talvez entre Tanathos e Eros? Possivelmente não, pois a mesma estaria em fluidez entre os limites simbólicos expressos; a vida é pulsão, é reconstruir, o tênue que dá-se entre o conhecido e o desconhecido, entre a razão e o sentimento, entre o efêmero e o que cria raízes, esse o universo em que nós todos nos movimentamos, e aí recriamos nossas existências, reescrevemos nossa história, mesmo que para alguns os capítulos sejam monótonos ou monocórdios ou mesmo tenham seus atores perdido a vontade de compor ou recompor o dinamismo vital: mesmo assim a pulsão estará lá.
Estamos insertos no dinamismo e pulsar vitais, dentro do que a cultura recebida e vivida em nossas circunstancialidades aponta; somos portanto seres em construção, mesmo que tenhamos optado por darmos um caráter absolutamente rotineiro ou burocrático à nossa própria existência. A profundidade das mudanças manifestar-se-á dentro de décadas ou de dias, seguindo ritmo próprio e natural.
Temos aqui que fazer um pequeno recorte, que abarca o glamour fantasioso e irresistível da expressão destino que, para muitos, é um dado metafísico que tem uma função determinante não só na estrutura dos fatos, mas rege modificações interessantes na própria vida das pessoas. Destino é algo que você acredita que exista ou não, pelo menos no que concerne àquele ter força suficiente para modificar os fatos futuros. Se você crê firmemente em tais assertivas, o sentido da vida será o curso do destino, capricho da sorte. Cessam aí as dúvidas, porque a certeza reside justamente na incerteza do que virá. Deuses regerão os caminhos da vida, dos quais seremos navegantes, já com todos os portos e cais pré-determinados.
Quando os fatos da vida nos surpreendem, especialmente de modo desfavorável, na maior parte das vezes não conseguimos entendê-los, apenas sentimos o impacto e as alterações que virão a partir daí; nem sempre a resignação acompanha nossos sentimentos. Angustiados, não nos acorre nada que seja razoável: muitas vezes a injustiça, a perda permanente ou não de quem amamos, uma doença, enfim, apenas transmite-nos dor, desamparo, impotência, desolação. Muitas vezes parece que estamos absolutamente jogados ao caos, e que a vida perde seu sentido.
Aí quando a surpresa nos abate muitas vezes nos interrogamos: há sentido em tudo isso? Há sentido na miséria, na violência, nos crimes, nos ataques sangrentos, nos homicídios, nas doenças insidiosas, na injustiça? Há sentido na sexualização exacerbada das crianças, há sentido na pedofilia, na fome, na usura, no ganho desmesurado, no racismo, nos extremistas e nos fanáticos, entre outros? E aí, forçosamente temos de admitir que, a exceção dos flagelos naturais e das doenças, a construção de uma sociedade reflete sua historicidade, sua cultura mas, sem dúvida, também mostra, claramente, seu grau de educação e seu leque de livre-arbítrio. Quando não há solidariedade, há exacerbação da miséria, há um leque de necessidades intocadas. Quando não há trabalho, quando não há lazer, quando a violência campeia, por certo há menos cultura, menos comida, menos habitação, e especialmente, menos educadores e educandos. A falta de ética é uma opção social, como as demais. E os intérpretes e atores de todos esses atos que compõe a sociedade humana somos nós mesmos. Não há porque buscar no outro o que negamos a nós mesmos: o auto-conhecimento, a disciplina, o amor, a meiguice, a delicadeza. E só podemos descobrir sentido na vida, mesmo em suas catástrofes pessoais quando desenvolvemos um profundo senso de ética, de amorosidade, quando passamos da posição de juízes à posição honesta de observadores e atores. Interagimos com a vida, sendo parte dela, e por isso a recriamos em nossa carne e nosso espírito.
A religiosidade não é algo que garanta que seremos solidários, amorosos e especialmente que nos importaremos com o outro. Contrariamente, podemos usar um simulacro para justificar nossas próprias indiferenças. A própria organicidade ou fundamento das religiões pode dar-nos um estuário para que, freqüentando templos, mesquitas, igrejas, sinagogas, e outros locais dedicados ao espírito, possamos continuar ensimesmados em nossos invólucros de egoísmo, senão vejamos.
Dizem as religiões haver um ser superior que controla e vê tudo, que nos observa mesmo antes de nascermos. E nos perdoa sempre desde que nos arrependamos de nossos pecados com sinceridade, tendo por todos seus filhos a mesma consideração e amor. Ora, a idéia de um grande pai que nos orienta e nos dará seu perdão eterno e irrevogável poderá ser entendida por muitos como um ato de liberalidade; se assim for, mesmo que não sigamos os caminhos religiosos institucionalmente traçados para atingir a glorificação, ao cabo e ao fim estaremos perdoados, o que reforça o glamour do destino, ou, em outras palavras, a indecisão do que virá ou advirá de nossos comportamentos poderá ter uma solução romântica, ou uma sustentação no improvável, na essência do non-sense. Uma gotinha de caos libertador no cotidiano, a teoria do destino…inclusive para refutar o que entendemos seja livre-arbítrio…
Para quem, contudo, não crê em tal possibilidade, abrem-se outros caminhos que poderiam ser trilhados para entender o que seria, afinal, tal “sentido”. No meu entender, há muito de circunstancialidade, muito de avizinhamento e uma dose larga de livre-arbítrio. Creio sermos os protagonistas de nossas expectativas, o que significa dizer claramente que construímos e reconstruímos diuturnamente um sentido para a vida, e somos (re)construídos por esse mesmo sentido, a partir da imersão em nossas próprias circunstâncias e nas do outro e em que nos avizinhamos da realidade externa e de nossos próprios desejos e capacidades. Não somos, pois, perfeitos e acabados, mas menos uma pluma que o vento joga a seu bel-prazer e de acordo com as suas correntes. Estamos em construção, e é o ritmo dessa que nos vai tornando pessoas mais conscientes do que somos.
Quando falo em circunstancialidade, quero dizer que nunca viajamos sós, porque nossa cultura nos acompanha, nossos ritmos continuam nos pressionando a agir desta ou daquela forma. Somos nossas circunstâncias, estamos imersos nela, e nossa própria moralidade e senso de ética estão aportados em tais aspectos. Muitas vezes não vemos sentido em decidir desta ou daquela forma, e quanto mais complexos os assuntos, mais forçam uma aparência simples, quase sem maiores conseqüências. Tomemos cuidado, ao permitirmos que as circunstâncias tenham a capacidade de iludir-nos, fazendo-nos ver apenas o que não passa de momentâneo, mas que toma foros de verdade absoluta, porque nossa possibilidade de enxergar está razoavelmente comprometida… as vezes é necessário que não decidamos, mas que permitamos que o tempo opere seus efeitos.
Avizinhamento tem justo o sentido da palavra: vizinhança, avizinhar, limítrofe, estado de limite. Estamos nos aproximando de um determinado ponto, de um determinado referencial. Podemos ou não rejeitá-lo, e agiremos na conformidade do que nos for possível escolher. Outrossim, num mundo absolutamente padronizado, talvez não vejamos em princípio,sentido em duas situações: na primeira, como não sentirmo-nos presos dentro dessa visão de estranheza e na segunda, porque contestar o que já está posto, o que já introjetamos como mais ou menos inalienável, correto, não-precário, enfim, todas essas noções que conhecemos de longo tempo.
Temos medo dos nossos vizinhos, do que eles possam pensar, das suas fronteiras, do pensamento deles, mesmo temos medo de seus ócios, então preferimos, não raras vezes, ignora-los, deixamos de vizinhar, tornamo-nos estéreis em meio a pedras. Esquecemos que o isolacionismo de há muito mostrou e mostra suas desvantagens. Deixamos de apoiar e dar apoio. Deixamos, simplesmente deixamos que aconteçam arbitrariedades, nos tornamos veículos indiretos das mesmas, porque fomos acostumados a pensar de modo pragmático unicamente em nossos umbigos…Não somos solidários ou se o somos, pretendemos fazê-lo quanto mais distanciado do outro, melhor…Existem movimentos no mundo inteiro, especialmente de ongs para que possamos dar maior apoio a quem necessita, o que já é muito bom, despertando o sentimento de que, antes de sermos vizinhos, talvez sejamos simplesmente pessoas em busca de outras, querendo todos carinho e solidariedade, em contraponto a uma vida gris; contudo, essa nossa tendência ao individual, ao narcisismo pode, sim, trazer conseqüências a todos nós, tendo condições plenas de alterar, para melhor ou pior o “sentido” de nossas vidas.
Livre-arbítrio…rios de tinta já foram escritos sobre o livre-arbítrio. Digo simplesmente que entendo-o como nossa capacidade de dispor. Especialmente de nós mesmos. Analisar o livre-arbítrio é tarefa vastíssima que merece e demanda mais que meia dúzia de idéias, talvez algumas mal acolchoadas…sendo ele no entanto não é razoável que esqueçamos que o livre-arbítrio é mais do que um item que se disponha quando nos referimos a esse assunto: é, sim, uma mola propulsora…
Enfim, talvez o sentido da vida seja bem mais que uma metáfora, da qual desempenhamos não só o papel do crítico, mas especialmente, do autor e ator que irá dar cor, sentimento, e os marcos referenciais que reconstruirão incessantemente seu próprio caminho. Entender que a vida tenha um sentido é entendermos nossa possibilidade de intervir, interagindo de modo ético e humano com nossa própria existência e com a do nosso irmão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s