0067 – Violência

Março de 2007

Às vezes, olhando alguns filmes, gostaria que os mesmos fossem estritos, datados, ou seja, retratassem uma época específica. Easy Rider, por exemplo, é datado. Vários filmes históricos ou com fundo histórico também. Eles nos fazem refletir a partir de um fato ou de um cenário de fatos passados. O que assusta, ao ver Laranja mecânica é que ele é atualíssimo; há um pouco dele pulsando no cotidiano, há um “Alex” que se reproduz potencialmente em cada movimento de agressão e violência. No entanto, da mesma forma que Laranja Mecânica, quando assistimos documentários sobre violência e crimes já institucionalizados, quando tratamos de fatos e propensões criminosas, nos damos conta de que não se trata de uma configuração em que há um bandido e do outro lado, um mocinho.
Os tempos de Roy Rogers já se vão longe, e o Zorro já desceu de seu cavalo há muito tempo. Mesmo Super Homem já tem suas crises existenciais. Mas, retornando, há no mínimo uma dubiedade na questão da violência.
No documentário que assisti, sobre a violência no Rio de Janeiro, uma fala é fundamental: “Será que a sociedade não quer uma polícia corrupta? Será que a sociedade quer uma polícia que efetivamente entre na casa do meninão rico de Copacabana e o leve preso, ou ao seu pai, ou a todos juntos?”
Embora seja doloroso concordar, essa indagação vai remeter às épocas ditatoriais, mas antes, bem antes dela, quando D. João VI fugindo das Terras D’Além Mar, com Napoleão em seu encalço, distribuía as melhores casas existentes no Rio de Janeiro para parte da Corte que o acompanhara na fuga, pondo os moradores na rua; quando Isabel terminou com a escravidão por pressão política inglesa, bem como anteriormente o próprio D. João havia, por recomendações expressas do mesmo país “aberto os portos às nações amigas”, eufemismo para contentar novamente a Inglaterra…
Quanto de corrupção e de violência patrocinada pela ação ou inação estatal geraram o caos que ora estamos vivendo?
Hà cerca de três anos atrás, lendo a Veja, prestei atenção em uma reportagem que apontava que a favelização no entorno das grandes cidades brasileiras aumenta de forma constante, o que é outra maneira de dizer que a miséria cada vez mais campeia…
Para onde irmos? Para a confiança celestial de que nada acontecerá, para as casas prisões que temos hoje em dia, abarrotadas de cercas e que podem ser abertas todas com um piscar de olhos? Talvez estejamos reintroduzindo um conceito já perdido de idade média, contraponto à idade pós-industrial e cibernética…
A questão é urgente, e soluções extremas, como a pena de morte já provaram ser apenas um modo de vendetta oficial, mas de modo algum podem sequer constranger o aumento e o perpetuar da violência, tomando-se como referência os Estados Unidos.
Somos então cativos da violência? Ela nos toma e joga com nossas vidas da maneira que bem entende? Infelizmente, por enquanto, sim.
Ao Estado também cabe uma parte enorme quanto ao propagar da violência. Não se trata aqui, de dizermos o óbvio, ou seja, de que os recursos para combatê-la são sempre inferiores, são uma capilaridade em face do jorro de projetos criminosos… O Estado que não protege seus cidadãos é o mesmo que patrocinou a miséria que aí está, uma insidiosa combinação de torpe distribuição de renda, um incremento às favelizações, à propagação de um ensino elitista e quando não de duvidosa qualidade, ao difícil acesso à justiça e à exclusão dos menos aquinhoados no processo produtivo…
Essas condições elevam o potencial de criminalidade e a propensão ao violento, ao grosseiro, ao obsceno, àquilo que estigmatiza a pessoa como se pertencesse a uma classe inferior. Assim criam-se os nichos de riqueza e os de pobreza, enquanto os investimentos em saneamento e em qualidade de educação em todos seus níveis não crescem…
Assim, em plena época pós-industrial, em que nunca a humanidade teve à sua disposição tanta tecnologia para melhorar significativamente seu padrão de vida, continuamos atrelados às idéias de fundo político que se caracterizam por simplificações incabíveis onde o complexo é o que prepondera. Peguemos, por exemplo, uma Dinamarca. Qual a contribuição da Dinamarca para os índices altíssimos de criminalidade no mundo? Quase nenhuma. Não há analfabetismo, a maioria esmagadora da população (mais de noventa por cento) possui casa própria, os serviços de saúde e de saneamento funcionam.
Há então que se ver até que ponto as políticas globais de um país favorecem ou não um discurso meramente repressivo ou trazem, de outro lado, preocupações emergentes com a sanidade de sua população. A partir dessa mediação é que poderemos alcançar uma crítica social e institucional que permita, ao menos, enfrentar o caos. Temos de definir não só uma estética, mas a ética dessa estética.
Ou, como diria Freire, temos de sair do nível de consciência semi-intransitiva, como sociedade e como prática, mas, para tanto, cabe bem mais do que discursos, independentemente dos interesses a que atendam. NOTEM A DATA DO POST. HILTON BESNOS.

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