0075 – Desinterecisses

Existem consensos, todos muito disseminados e demograficamente adensados, em torno dos significados e das manifestações das palavras “cultura” e “arte” e nenhum deles me interessa. Isto quer dizer que não tenho a menor motivação para escrever sobre estes consensos, estes dogmas, estes impensados, estes automatismos, estas inércias. Mas como tenho sentido que eles têm me assediado cada vez mais, que eles têm estado cada vez mais presentes onde eles deveriam estar ausentes, que seus portadores e propagadores querem a minha adesão, creio que vale a pena jogar fora umas poucas linhas de texto para descrever de forma incisiva e sucinta alguns destes consensos empedernidos.

Direto ao ponto. É desinteressante a convicção que faz com que alguém (de uma instituição cultural ou do poder público de uma cidade de médio ou grande porte) veja ou vá para um lugar que não é o seu habitual (habitual para alguém que atua em uma instituição cultural ou junto ao poder público de uma cidade de médio ou grande porte) buscando identificar “cultura” e “arte” e é capaz de lá encontrar apenas um menino com grande aptidão para o balé clássico e uma menina com um excepcional talento para tocar classicamente o violino. E nada mais. Pode-se argumentar em outra direção (sou insensível a esta argumentação), mas esta convicção expõe uma certeza do que é “cultura” e “arte” em sua dimensão ideológica e técnica mais conservadora. Não me dirijo contra o conservadorismo e a conservação. Apenas me desinteresso por esta convicção.

Também é desinteressante o hábito de as famílias (e as instituições correlatas) empenharem-se em inscrever sua prole em escolas de balé clássico e de música clássica. Hoje em dia é cada vez mais rara a perseguição do ideal romântico do casamento, do matrimônio, da busca pelo príncipe encantado ou pela princesa prendada, porque passou-se a perseguir o ideal igualmente romântico de formar descendências de bailarinos ou músicos. Este empenho das famílias e das instituições correlatas é o empenho da conservação ideológica e técnica de valores que não me interessam. Não me dirijo contra o conservadorismo e a conservação. Apenas me desinteresso por este empenho.

Apenas isto. 23-11-2013 AKIRA UMEDA

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