0098 – Curriculo oculto e inserção do aluno na sociedade pós industrial

CURRICULO OCULTO E INSERÇÃO DO ALUNO NA SOCIEDADE PÓS INDUSTRIAL

Objeto: Relacionar curriculo oculto e acesso ao mundo do trabalho.

Problema estudado: Inserção do aluno no mercado de trabalho na sociedade pós-industrial.

Metodologia empregada: Pesquisa bibliográfica. Anotações de aula.

Resultados obtidos: As pedagogias devem premiar o curriculo oculto e trabalhar com o simbólico e o multicultural na idade pós-industrial.

Uma das premências da escola é incentivar a reflexão do aluno, para que em face de uma questão situe-se, interprete-a, manipule os dados disponíveis, e conclua, decidindo com eficácia. Se a mesma envolver aspectos comportamentais, serão úteis aprendizagens que envolvam inteligência intereintrapessoal 1, observação, empatia; enfim, “pôr-se no lugar do outro”. Logo, a natureza da demanda determinará as possibilidades reais de solução.

Já aqui o pool de conhecimentos formalmente atribuídos à escola revela-se insuficiente, pois os comportamentos humanos, os trabalhos em equipe, as formações de grupo, as perdas e lutos psicológicos, a alegria, a sexualidade, a fé, a solidariedade, os sentimentos, as culpas, os fracassos e as impotências, o pulsar e as tensões, o fazer e o sentir encontram-se na maior parte das vezes fortemente presente no currículo oculto 2. Ali também estão os jogos de poder, as negociações, as inclusões e aceitação (ou não) do outro, os papéis de inclusão, a submissão e a passividade, as concessões grupais, e demais respostas dinâmicas. Desconhecemos a humanidade do nosso aluno; pouco ou nada sabemos de sua história, suas experiências, leituras de mundo, suas expectativas… Esse não-saber mecaniciza relações e dá vazão ao surgimento de padrões de pensamentos no sentido da exclusão.

Por outro lado, o próprio MEC ratifica dificuldades visíveis na aquisição dos conhecimentos formais. Parece-nos haver uma desintonia entre grades curriculares e realidades culturais. Supérfluo discutirmos aqui qual regime de ensino é o mais eficaz (se o ciclado ou seriado), pois o que importa é a qualidade de ensino e essa tem várias interfaces e sofre influências que extrapolam o âmbito da educação.

A humanização da escola é a de seus alunos, professores e funcionários. As atividades curriculares devem respeitar as realidades culturais, sociais e históricas onde a escola está inserida. Parece-nos irrazoável que a figura do sujeito epistêmico3 seja bastante para confrontar a complexidade com a qual lida a educação no seu dia-a-dia. É insuficiente a diplomação, se à mesma não estiver agregado um capital cultural e social.

Globalização: perfis culturais.

A globalização impõe novos paradigmas. O rompimento simbólico configurado pela multiculturalidade, fluidez dos mercados e consumo alienante, aliado às impotências das instituições para satisfazer demandas sociais trazem aos indivíduos um sentimento de instabilidade e individualismo exacerbado. Esses, então isolam-se em nichos comunitários com regras sociais rígidas ou alienam suas identidades ao mercado.

A ideologia global arriba-se firmemente na indústria do entretenimento (relacionada ao sentir) e na criação de necessidades artificiais (com seu consumo alienante) impondo como topos comportamental o egocentrismo, a passividade ou comportamentos anti-sociais , em clara oposição à autonomia e ao ser.

“Esta ruptura entre o mundo instrumental e o mundo simbólico, entre a técnica e os valores, atravessa toda a nossa experiência, da vida individual à situação mundial. Somos ao mesmo tempo daqui e de toda parte, isto é, de lugar algum. Enfraqueceram-se os laços que a sociedade local ou nacional estabelecia através das instituições, da língua e da educação, entre nossa memória e nossa participação impessoal na sociedade de produção, deixando que nós administremos, sem dedicação e sem garantia, duas ordens separadas de experiência”. (Alain Touraine, in Poderemos Viver Juntos, Ed. Vozes, Rio de Janeiro, 1999).

Novas tecnologias trouxeram às empresas transnacionais a opção mais econômica por terceirizações, capilarizando-se atividades específicas, com graus cada vcez maiores de especialização. Os mercados buscam profissionais com capacidade de integração, adaptação, interação e criticidade, privilegiando o domínio de línguas estrangeiras, a criatividade e habilidades de negociação e de decisão, em contraponto ao fordismo sufocante. Por outro lado, o terceiro setor emerge em vários países como grande arregimentador de força de trabalho solidário.

“A General Electric,…,em 1980 tinha 85% do seu faturamento em atividades nitidamente industriais e 15% em atividades terciárias. Em 1997, praticamente invertera-se a proporção, com 75% de seu faturamento proveniente das atividades de serviços: basta pensar que a GE opera com satélites, cartões de crédito, companhias de leasing, transportes marítimos e aéreos em todos os cinco continentes. Só no setor de seguros possui 28 empresas.” (Domenico de Masi in O Futuro do Trabalho, Editora UNB e José Olímpio, Rio de Janeiro e Brasília, 1999)

Na migração para o panteísmo cultural globalizado os valores parecem ter-se perdido; é o “mundo em que vivemos” e a escola também sofre tais influências, com dificuldades para relacionar-se com seus alunos e a comunidade escolar. Realmente há uma diferença significativa se pensarmos na típica sociedade industrial e no mundo pós-moderno e globalizado.

Valores culturais na época industrial Valores culturais na época pós-industrial
Força, Rivalidade, Agressividade, Dimensão pública, Capacidade produtiva, Domínio territorial Introspecção, Subjetividade, Estética, Criatividade, Emoção, Solidariedade, Movimentos para a Paz.

Essa mudança de paradigmas deve ser objeto de uma pedagogia que deve mediar tais valores e explicitá-los de modo claro.

“Os que tem 20 ou 30 anos frequentemente são ótimos profissionais, sabem trabalhar até a perfeição, porém não sabem escolher um livro para ler, um filme para assistir, não sabem organizar-se em família, ter férias, amizades. Assim, o tempo livre, em vez de se tornar uma ocasião criativa, degenera-se, oferecendo ameaça de tédio, de violência, de drogas….”Como se vê, o valor dos valores, ao qual a escola – a meu ver – deve imprimir a apropriada pedagogia pós-moderna, é o equilíbrio entre opostos, a hibridação de mundos diversos, a sabedoria da ‘dose certa’’. Domenico de Masi in Diálogos Criativos/mediação e comentários José Ernesto Bologna – São Paulo: DeLeitura Editora, 2002.

Conclusão

Lidar com um mundo complexo significa operarmos com instâncias intercambiáveis de valores/paradigmas. No que releva à escola é fundamental que ela se aproprie de um mundo simbólico que ainda se encontra à margem de seus planejamentos e rotinas. As escolas devem ter um projeto pedagógico definido que premie tais mudanças de paradigmas comportamentais, além dos objetivos habitualmente formalizados.

1.Quanto ao convívio com a mídia eletrônica, falada e escrita, é desinteligente confrontar escola e mídia; melhor trazê-la para a escola, discutir seu papel e prever espaços e atividades didáticas específicas 4.

2.Normalmente os projetos que utilizam as artes são os que mais demonstram eficácia contra a violência e o desinteresse. O aluno sente-se valorizado, encontra seu espaçopróprio, vê coerência para estar naquele local. É também de pensarmos que a educação física é importantíssima no reconhecimento da corporiedade, sumamente importante no equilíbrio intrapessoal e nos relacionamentos interpessoais.

3.O curriculo oculto funda a realidade social vivida na escola. “Para Vygotsky a aprendizagem vai depender do desenvolvimento prévio, não somente da criança, mas também do colega com quem ela está interagindo”. A zona de desenvolvimento proximal (distância entre o nível potencial e o nível real de desenvolvimento) “…desperta processos internos capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente, e quando em cooperação com seus companheiros 5 .” Criar estratégias pedagógicas que privilegiem o currículo oculto e melhore relações interpessoais (empatia, solidariedade) é não só integrar nos limites da escola, mas facilitar a inserção do aluno na sociedade globalizada.

4.O (re)conhecimento do sujeito em face à sua realidade é imprescindível para que ele deixe de ser menos e passe a ser mais, dentro do conceito freiriano, construindo sua consciência crítica. Logo, aproximar os pais da escola envolve espaços de convivência para experenciar, conhecer e entender a cultura local.

Notas:

1 – Inteligência interpessoal e inteligência intrapessoal referem-se à Teoria das Múltiplas Inteligências (TMI) de Howard Gardner (ver blibliografia). A inteligência interpessoal é a competência especial em relacionar-se com terceiros, perceber seus humores, seus sentimentos, suas emoções, descentrando-se de si próprio para trabalhar com o outro. A inteligência intrapessoal é o auto-conhecimento e a capacidade de estar bem consigo. Tal pessoa administra seus projetos e sonhos, constrói seu desenvolvimento, suportando de forma madura e consciente as próprias frustrações e angústias.

2 – O currículo oculto é constituído por todos aqueles aspectos do ambiente escolar que, sem fazer parte do currículo oficial, explícito, contribuem, de forma implícita para aprendizagens sociais relevantes (…) o que se aprende no currículo oculto são fundamentalmente atitudes, comportamentos, valores e orientações…” – in Teorias Curriculares Críticas, por Profª Drª Iolanda B.C.Cortelazzo do Curso de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências Humanas e Artes da Universidade Tuiuti do Paraná.

3 – A aprendizagem da herança cultural da humanidade é vinculada aos processos educacionais, cuja efetivação social e formal é de responsabilidade das escolas. Neste contexto, aprendizagem tem estado unicamente relacionada à construção de conhecimento e a Educação ao sujeito epistêmico, negando a sua história e a sua singularidade. E esse sujeito epistêmico pode ser considerado de forma passiva, um receptor de informações, um reprodutor de idéias – e neste caso, tem-se uma forte postura dominadora e absoluta que não favorece o pensar, o ser critico a possibilidade de transformar, pois o saber está no outro e, então, só resta a ignorância. Ou pode-se partir de uma visão em que o sujeito epistêmico é um construtor ativo de conhecimentos resultantes da sua relação e reflexão sobre a realidade e sua capacidade de transformá-la; neste caso diminui-se a postura dominadora e considera-se o sujeito social e histórico, mas ainda não emerge, em conjunto, o sujeito singular, o sujeito aprendente. In A Psicopedagogia na Escola: estabelecendo relações, por Roberta Peregrino Gonçalves.

4 – Anotações de aula proferida pela Profª Drª Márcia Amaral Corrêa (FAPA) cujo tema foi “A mídia como instrumento pedagógico”, no Curso de Extensão “Intervenção Pedagógica na ‘Não’ Aprendizagem” (FAPA).

5 – O nível real de desenvolvimento é determinado pela capacidade de resolver independentemente um problema e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da resolução de um problema com a ajuda de um adulto ou em colaboração com outro companheiro mais capaz (Vygosky, 1979, p 133).

Referências Bibliográficas:

1 – Gardner, Howard in Estruturas da mente: a teoria das inteligências múltiplas – Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994.

2 – Midia virtual, sitehttp://www.boaaula.com.br/iolanda/disciplinas/curriculo/defcurriculo.html

3 – Midia virtual, site http://www.tekoa.hpg.ig.com.br/online 1.htm

4 – Compilação da problemática da mídia e suas influências no campo comportamental.

5 – La Rosa, Jorge (org) in Psicologia e Educação: o significado do aprender, 5ª ed – Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

Porto Alegre, 14 de setembro de 2003.

Hilton Vanderlei Besnos

 

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