0102 – Brevíssimo retrato 3 x 4

Eu em casa (Fortaleza, 2015)

Escrever sobre nós mesmos também é escrever sobre todos nós, no sentido de que, de uma ou outra forma, somos todos viajantes. Nos diferenciamos a partir dos caminhos distintos de nossas viagens, de nossas identidades e perfis de vida. Somos uma experiência de nós mesmos, nossa própria crítica e nossa própria aventura. No entanto, quando nos (re)criamos diariamente, trazemos uma vivência que é alimentada por valores, por perspectivas, por sonhos, pelos projetos que almejamos alcançar. Como diria Sartre, um homem sem projeto não é ainda um homem.

De onde vêm essas forças, essas idéias que ajudaram a construir o que sou? Que idéias são essas? A proposição é bastante envolvente. Para Vigotsky o conhecer é uma experiência na qual se misturam culturas, linguagens, histórias pessoais e comunitárias e a capacidade de aprendermos com os outros. O social é elemento fundante. Tenho por certo que é o caminho mais próximo da minha realidade. Quais são meus elementos fundantes?

1 – A educação, no sentido social do termo. Embora eu não possa reclamar de sã consciência em relação ao cognitivo que fui e que continuo construindo ao longo da vida, o mais importante na minha visão não é o saber acadêmico, mas o saber social. Isso, contudo, se me traz algumas profundas desilusões individuais, ao mesmo tempo me remete a uma noção de humanidade da qual não quero abrir mão. Educar é educar-se através do outro embora, sejamos realistas, nem sempre esse outro é alguém com quem possamos conversar, menos ainda aprender. Talvez por isso a educação seja um ato amoroso, requeira tempo e conhecimento.

2 – A música é um bálsamo que veio à terra para nos embalar, para que tivéssemos nossos momentos de deuses embora nossos pés estejam grudados ao solo. Fui muito privilegiado quanto a tal item. Cresci ouvindo bossa-nova, tropicália, mpb, jovem guarda, músicas italianas, narrativas românticas americanas, um mundo que apenas faz tornar a alma algo efetivamente relevante. Vivam o cinema, o teatro e todos os movimentos culturais que busquem a vida e repudiem a ignorância e o egocentrismo de toda e qualquer nacionalidade e cor.

3 – Detesto arrogância de qualquer espécie. Abomino.

4 – Por vezes sinto-me habitar um mundo restrito e uma época incômoda, na qual as relações sociais são por vezes deprimentes. É um mundo voltado para o interesse, para o individual, para a necessidade e não para o que sonhamos. Angustia-me pensar que, sendo tão extrovertido, possa ter tão poucos amigos. Aliás, as amizades são territoriais. Basta trocar de emprego para que elas se fluidifiquem. É um momento no qual você não conhece pessoas com que convive, pois a arte do encontro continua sendo uma arte, bem distante da conveniência e dos compromissos profissionais.

5 – Meus parentes, especialmente meus pais e padrinhos me deram condições de pensar o que penso hoje. Deram-me conforto, a possibilidade do estudo e me ensinaram uma ética e uma prática na qual valores são importantes. A partir dessa base fui construindo meu caminho.

6 – Orgulho-me da minha profissão, mas não das estupidezas institucionais e das tristezas que sou obrigado a enfrentar. Muitas vezes procuro ser educador, mas não passo, não raro, de um professor. Gosto muito de estudar, mas me frustra pensar que não consigo devolver socialmente o que recebo.

7 – Deus concedeu-me filhos, me permitiu encontrar o amor e me deu saúde, inteligência e uma vontade enorme de ser feliz, além da capacidade de lutar para manter tais realidades tão belas. Minhas memórias me acompanham e ajudam a tecer meu futuro. Não sou, contudo, o que fui. Sou uma narrativa nova, ainda em fase de construção.

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