0105 – Um homem e um cão

2005-04-03 – Ontem vi um homem no centro de Porto Alegre. Ele estava em andrajos e acariciava um cão, que estava dormindo à calçada. Uma cena absolutamente comum, mas chamou-me a atenção o modo enternecedor utilizado pelo homem, jovem, e pelo menos momentaneamente condenado à mendicância. O carinho ao cão era, em verdade, a única possibilidade que possuía o mendigo de acariciar algo vivo. Por ele passavam centenas de pessoas por dia, mas para as mesmas o jovem mendigo era invisível.

Vestia uma capa de invisibilidade de que nos fala Bauman. Dentro de uma sociedade cujos valores são absolutamente fluidos, o mendigo não poderia ser objeto de carinho de ninguém. Virtualmente não existia para a sociedade, ou seja, para a sociedade de consumo; era, portanto,um pária.
Seu gesto de carinho, portanto, não poderia ser compartilhado entre aqueles humanos iguais a si e que eram parte de seu degredo. Deveria ele contentar-se com a possível atenção de um cão.
Jovem, em andrajos, sujo, aquele jovem homem ali estava, acariciando o cão devotadamente, enquanto brindava também com sua própria invisibilidade os transeuntes, eu inclusive, que registrei a cena e fiquei pensando nas possibilidades que temos de sermos felizes e de nos realizarmos. Havia ali um quê de desequilíbrio, uma sensação de abandono não mitigado, uma solidão construtora de paredes.
Havia ali um mendigo e um cão. E uma esperança humana de consolo, que se resumia a possibilidade de um latido amistoso. Ou, quem sabe, de uma dentada.
Fosse a segunda opção, cessaria a invisibilidade animal, mas, sem dúvida, jamais a indiferença humana.
Um homem só existe para a nossa sociedade, quando é um consumidor. Quanto menores forem suas possibilidades reais de ingressar no jogo de um mercado inesgotável e narcisicamente neurotizante, menos possui visibilidade em relação a sua comunidade. Os contingentes de não-consumidores são cada vez mais julgados párias e marginalizados pela sociedade e por isso devem ser afastados.
No entanto, ao olharmos esse contingente, se a nossa combalida humanidade nos assalta, de outro pensamos em fugir, em não ter contato com essa triste realidade que configura um pesadelo do qual tentamos escapar. Em verdade, a marginalidade incomoda demais não tanto pelo substrato de violência a ela associada, mas porque assemelha-se a um espelho, a uma mensagem tácita do que a maioria das pessoas tenta esconder: sua imensa fragilidade em relação a um mundo consumista e doente, por um lado, e sua ostensiva perda de humanidade, por outro.
Somos seres em trânsito, consumindo transitoriamente em um mundo de valores que se esfumaçam como um nada preso entre nossas mãos.
Somos todos, passiva ou ativamente construtores da marginalidade social, a menos que decidamos optar pela solidariedade e por exercermos nossa cidadania e não por sermos invariavelmente hipócritas. Mas, conforme disse Bauman, o primeiro valor a ser sacrificado pelo mercado de consumo é a solidariedade.
Se assim é, que pelo menos as capas invisíveis não nos inviabilizem de enxergarmos a realidade e de críticamente denunciarmos sua existência. Lutar contra a desigualdade não é um anátema, não é uma proposta religiosa, é uma questão de sobrevivência e de dignidade humanas. HILTON BESNOS

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s