0148 – A praça do meio do mundo

A praça do meio do mundo

Um – A indicação

Estranhamente, quando Hélio foi consultar o mapa rodoviário, não o encontrou dentro do porta luvas do carro. Como, se tinha certeza que havia deixado ali? Fez uma nova busca, que também resultou infrutífera. De repente, foi tomado por um sentimento de intensa desolação. Perdera-se em uma estrada vicinal, no interior de Pernambuco.

A realidade, ali, era um sertão agreste e o calor sufocante que invadia o automável, enxarcando-lhe a camisa. Ficou feliz por estar de bermuda e chinelos. O velocímetro informava que havia combustível para mais cinqüenta quilômetros, insuficentes para retornar para o vilarejo mais próximo.

Desligou o motor do carro, desceu e achou uma improvável sombra, onde descansou enquanto fumava um penúltimo cigarro. Agora, o que fazer? Olhou para o céu e, pela primeira vez na vida, teve a sensação estranha de que não era ele que observava as nuvens, mas o contrário. Enquanto matutava a respeito do mapa que sumira, alguns cães perdidos e esquálidos passeavam daqui prá acolá. Um deles havia latido, agora mesmo, à sua esquerda. Sem alternativa, Hélio ligou a ignição e prosseguiu pela vicinal, esperando que, enfim, a sorte começasse a lhe sorrir.

Duas horas de muita poeira depois, encontrou, a contragosto, o fim da vicinal, que se perdia em meio ao solo gretado. Outra estranheza, uma estrada terminar sem um ponto de destino. Caramba! fora enganado outra vez. Desceu do carro e, a uns duzentos metros de distância, avistou um poste de madeira. Andou até lá. No mesmo se encontravam pregadas umas tábuas velhas, num triste simulacro de sinalização. As pontas dessas tábuas haviam sido toscamente aparadas, e daca uma apontava para diferentes direções. Desconfiado, mas curioso, e com uma angústia que lhe ía crescendo no peito, dirigiu-se ao poste.

Em apenas uma das madeiras havia uma escrita irregular, obra provável de um semi-analfabeto, onde se lia: “PRRASA DO 1/2 DO MUNDO”. A placa apontava para o oeste, ainda mais para o interior do sertão.

O que seria essa praça do meio do mundo, indagava Hélio a si próprio, enquanto retirava a camisa grudada ao corpo. O que era aquilo? Se era uma praça, deveria existir no mínimo um vilarejo, mas se assim era, porque o nome da praça e não do provável vilarejo? As dúvidas, o calor, a angústia íam se acumulando. Afinal, onde diabos ele estava? Na placa não constava qualquer indicação de quilometragem.

Atarantado, já sem camisa, sentindo que a fome e a sede iriam em breve ficar insuportáveis, abriu a porta do carro, do lado do carona e sentou-se pensando sobre o que deveria fazer. Só podia seguir em busca da tal praça, seguindo a orientação precária da placa. Tudo, porém podia ser um truque criado por bandidos de estrada, rondando aquele sertão entregue à própria sorte.

Desanimado, olhou o carro coberto de poeira grossa, que já havia se transformado em uma cobertura de areia. Passou o dedo indicador no capô, abrindo um caminho que revelou a pintura original do veículo. Verde, a cor era verde.

Não deixava de ser irônico aquele verde no automóvel, no meio do sertão deserto, quente, gretado. Deixou-se descansar um pouco ali, esperando, talvez uma aragem. Finalmente, depois de alguns minutos, virou a chave de ignição. Nada. De novo tentou. Nada foi a resposta. No desespero, forçou a ignição. O carro apagara e a sensação é que era para todo o sempre. Esperou mais um tempo e quando tentou ligar novamente, o painel anunciou o auto-aquecimento.

Enraivecido, saiu do carro e bateu a porta com violência; o desespero de sentir sua imensa soliddão abriu-lhe um buraco no peito. Não havia carro, não havia celular, tampouco alguma indicação segura e, se continuasse assim, dentro em pouco a esperança também iria se esvair.

Daria tudo por uma refeição decente, por uma cama confortável onde pudesse repousar o corpo e, especialmente, seus nervos, já em frangalhos. Queria tomar um banho, queria dormir, dormir, esquecer tudo aquilo.

Poucas vezes Hélio Martins Andrade se sentira tão impotente, tão submisso, tão ao-deus-dará. As lembranças da irmã o alcançaram como um trem. A irmã no hospital de Belém, sendo consumida pouco a pouco pelo câncer que lhe dizimava hora após hora, dia após dia, até o fim. O filho único, do qual havia se extraviado. O rapaz, agora com dezessete anos, morava no Rio Grande do Sul. A história era longa, e não podia se dar ao luxo de pensar nisso agora.

Os abandonos, as perdas, os lutos, tudo, tudo parecia absolutamente real, quando o choro represado por anos aflorou como uma cascata incontrolável de seu peito. Beber, andar, comer, andar, tomar um banho, andar até a praça do meio do mundo parecia a única solução.

Algum tempo depois (ou seriam horas, talvez), ainda profundamente angustiado, decidiu pelo único caminho possível. Voltou ao carro, tentou novamente a ignição. Nada. Apanhou uma pequena valise de mão e começou a trilhar o seu rumo. Fosse o que fosse, as pernas o levavam como autômatos, como em um sonho, para a praça do meio do mundo.

Dez metros acima, o carcará o observava.

Dois – A descoberta

No relatório que o delegado Raimundo de Oliveira recebeu, constava que Hélio Martins Andrade, vendedor, sumira com seu carro duas semanas antes, em algum trecho do sertão. O automóvel que o mesmo dirigia era um Opala verde, com placas de Diamantina, São Paulo.

O policial, experiente, examinou com cuidado o relatório. Já havia tentado entrar em contato com pessoas da família do desaparecido, mas havia apenas uma prima que morava em Quixeramobim, e que nada sabia da vida e do cotidiano de Hélio. Ah, sim, havia um filho, fruto do casamento desfeito anos atrás, mas o rapaz morava muito longe dali, em Candelária no Rio Grande do Sul, e não via o pai há pelo menos três anos.

Na empresa onde Hélio trabalhava, forneceram um roteiro de suas viagens e com base no mesmo, o delegado começou a busca.

O inquérito policial se encontrava entre centenas, e só foi objeto da atenção especial do delegado quando o mesmo recebeu um telefonema na madrugada anterior, por volta das três e meia da madrugada. Uma voz metálica dissera:

“O Hélio está conosco, na praça do meio do mundo, na estrada vicinal”. Foi a única coisa dita. Com base no telefonema, que não pode ser rastreado (essas coisas só funcionam na televisão e em cidades grandes, pensou Raimundo), o delegado, com dois policiais finalmente encontraram a vicinal. Seguindo pela mesma, localizaram um opala verde. Era estranho, mas no meio daquele polvaredo o automóvel encontrava-se absolutamente limpo, como se alguém estivesse ali cuidando de sua aparência, o que era absolutamente improvável, visto que não havia qualquer cidade, vilarejo ou comunidade em um raio de oitenta quilômetros do local. Não havia qualquer indício de violência no interior do veículo. Nenhum sinal de Hélio, a não ser as roupas que havia deixado no carro e um mapa rodoviário, que se encontrava no porta luvas. Como então, Hélio havia se perdido?

Se a sua experiência valia, pensou Raimundo, seria improvável encontrar o desaparecido em boas condições, em razão do local ser absolutamente êrmo e distante de tudo. Outra coisa que também não ficava muito claro é porque Hélio havia abandonado o carro, uma vez que a chave de ignição, que ficara ali, fazia o motor funcionar perfeitamente. Mais intrigado ainda ficou o delegado quando o painel apontava gasolina suficiente para pelo menos mais cento e cinqüenta quilômetros de rodagem. Ladrões de estrada praticamente inexistiam na região. Parecia evidente que Hélio havia parado o carro e descido a pé porque quisera. Os pneus estavam perfeitos.

No calor da tarde o policial teve a sua atenção despertada para um poste, onde haviam madeiras toscas pregadas. Enquanto os outros policiais procuravam pistas, examinou as “placas” de sinalização com muito cuidado, mas além da inscrição famosa e popular “Jesus voltará”, não havia qualquer indicação de coisa alguma.

“Meu Deus, esse povo ficou é doido com esse calor”, pensou Raimundo, enquanto, indiferente, retornava em direção à viatura policial. Duas horas depois, o local estava vazio. Raimundo e seus colegas tinham certeza de que Hélio havia abandonado o local, que o automóvel estava perfeito e que nada existia num raio de quase oitenta quilômetros dali. Quando chegasse à cidade, comunicaria o fato à prima do desaparecido e à seu filho gaúcho.

A voz metálica continuava, cada vez mais, um mistério.

O sol ía a pique quando o polvaredo levantado pelos pneus do carro encobriram o carcará que os observava e que, agora, batia as asas rumo ao oeste.

Março de 2007. HILTON BESNOS

 

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