0175 – Quem nada tem

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A miséria que tomou conta da nossa sociedade não consiste na falta de bens materiais dos mais desfavorecidos, mas na falta de humanidade que inunda a percepção e comportamento de tantos de nós.

Numa tarde excepcional, quando saía da minha casa em direção ao trabalho me deparei com uma cena mais do que única: dois homens de meia idade com aparência de mendigos andavam lado a lado com mais de vinte cachorros à sua volta. Além disso, um dos homens empurrava um carrinho de mão com dois cachorros dentro dele, aparentemente velhos e machucados. A cena era realmente tocante, porque apesar da nítida pobreza, os homens sorriam, e todos os cães à sua volta se comportavam como protetores dos dois seres incomuns, que pareciam mais estar resgatando soldados de seu exército.

Na verdade, um daqueles homens era um velho conhecido. Sr. João é um senhor que mora em um pequeno barraco num terreno que ele ocupou ilegalmente no bairro, e onde cuida de tantos cachorros que já nem sabe mais quantos são. Vive de doações para seus animais e nada pede pra ele mesmo. Já se tornou conhecido na região. Muitos o ajudam.

Senti como se tivesse visto a cena de um filme, porque apesar de ter sido uma única cena, ela se tornou tão forte pra mim, que dirigi os quase vinte quilômetros seguintes pensando no que tinha presenciado e nos tantos significados por trás disso.

Num mundo onde todos parecem estar buscando coisas materiais, o individualismo tomou conta da maioria de nós da pior forma possível: com naturalidade. É normal na maioria das pessoas, e inclusive em mim mesma, o anseio constante por realização pessoal: prazer, sonhos, aceitação pessoal, profissional e social. Aos nossos olhos, às vezes já parece tão difícil cuidarmos só de nós mesmos, quem dirá então do outro? Um amigo, um conhecido, desconhecido ou ainda um animal de rua?

Dia após dia levantamos, trabalhamos e tantas vezes nos lamentamos pelo tempo que nos falta para um usufruto maior da vida, nos questionamos sobre aquele sonho a ser realizado e o quanto mais há a ser conquistado. Círculo vicioso, natural do ser humano, que é entendido como um combustível essencial para se viver. Há de se sonhar e de se desejar sempre mais, para se seguir em frente.

Mas eu me pergunto se este círculo vicioso também não é ao mesmo tempo uma tênue linha entre os sonhos que nos mantém em movimento e a ambição cega que não nos permite mais ver os verdadeiros valores da vida.

Vejo várias pessoas que já possuem tanto e simplesmente não conseguem deixar de se preocupar com o futuro, deixando de viver o que realmente importa: o presente. Pessoas que não conseguem dar um riso alto, aberto e escancarado, daqueles que vem de dentro. Pessoas que desconhecem o prazer de alimentar um animal de rua ou até mesmo uma pessoa. Seres humanos que não sabem mais o que é viver fora de seu individualismo. O viver somente em torno de si mesmo, como se o mundo girasse apenas ao seu redor.

Quando lembro daqueles homens atravessando a rua rodeado de cães andando alegremente à sua volta, penso no bem que fazem e o quão em paz encostam suas cabeças em seus travesseiros ou onde quer que seja. Que nível de consciência tamanho desapego proporciona? Eu não sei, mas gostaria de sentir. Enquanto a maioria de nós às vezes não consegue dormir devido à ansiedade sobre aquilo que ainda não tem ou o que ainda não fez.

Infelizmente, nossa natureza naturalmente confusa em constante busca pelo equilíbrio, costuma nos pregar peças. Exemplo aqui, o esquecimento de que a felicidade plena está nos pequenos gestos, no dia-a-dia e que nada custam: um sorriso ao próximo, um abraço, um elogio sincero, um aperto de mão, um gesto de apoio, uma caridade despretensiosa.

No fundo, tudo se resume em amor. Há os que nunca saberão o quão prazeroso é o dar sem nada receber em troca. A gratidão que chega por um sorriso, no alívio do outro que recebeu, até mesmo no latido de um cão.

Por um momento senti pena daqueles dois homens, pela pobreza material e por todo trabalho que deviam ter para conseguir alimentar tantos cães e eles mesmos. Segundos depois tive pena de mim mesma, ao ver a satisfação em seus sorrisos, numa consciência leve que seus semblantes transpareciam, numa despretensão e desapego das preocupações comuns à maioria de nós.

Porque nesta vida quem nada tem, não são os que não possuem dinheiro, mas aqueles que perderam a possibilidade desse olhar. O olhar que vai além de seu próprio mundo e de seus próprios desejos. O olhar ao próximo com o amor mais puro que existe. O amor à vida por si só, da qual fazemos parte e deveríamos vivenciar de modo coletivo. O amar ao próximo como a si mesmo.

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CAROLINA VILA NOVA

Carolina Vila Nova é autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Biografia), “A dor de Joana” (Romance-drama), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance-drama) e “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil). Todos disponíveis no site http://www.amazon.com e http://www.amazon.com.br Mais matérias e informações em: http://www.carolinavilanova.com.
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