0185 – Soleiras diurnas

2005-04-04 – Fantasmas enevoam minhas soleiras diurnas. Insistem em me acompanhar, como se fossem presságios, mensagens incompreendidas em uma dimensão fluida com a qual emolduro meus desejos e pensamentos. São sombras, fluxos de solidão e mesmo um pouco de comiseramento; lá estão eles, os meus fantasmas, sorrindo calidamente e estendendo-me suas inequívocas boas-vontades para que eu as toque apenas com um sopro ou um toque de mão.

Mesmo que as saiba carinhosas ou frementes, sutis ou enamoradas, são elas, sombras etéreas, que se desfazem na medida em que as luzes matutinas permitem que meu corpo sinta o sol, que a azáfama diária me envolva, trazendo um sem-fim de ruídos e sensações. Mergulho então entre os zunidos dos celulares, o rumor do trânsito, e minha mente vagueia entre compromissos e despertados desejos, e então convoco-me para passeios diários entre talheres e supermercados, pneus e semáforos tricolores, enquanto meus sentidos captam aqui e ali vozes desconhecidas, trechos de Bach, pedaços de Andaluzia…

Afastados temporariamente é-lhes defeso buscar guarida em outros pensamentos que não os meus, pois pactuamos uma entrega mútua, uma reciprocidade quase amorosa com a qual nutrimos nossos momentos.

As visitas só ocorrem quando se denunciam as primeiras sensações do dia, momentos nos quais me dispo de meus sonhos e o sono ainda está posto em mim como um visgo, querendo mais possuir-me e levar-me de volta para a noite… Ali, somente ali, enquanto espreguiço-me na cama e quando meu rosto percebe a si próprio no espelho é que percebo suas presenças evolando, buscando-me como uma menina busca a amiga para uma brincadeira de roda, um jogo de amarelinha…
Quando encapsulada em minhas rotinas, meus trabalhos e nas aproximações curvilíneas com as quais sustentamos nossas diárias relações, ausentam-se temporáriamente meus convidados.
Retornarão contudo pois sabem que serei eu a dar-lhes sentido, a alimentá-los, a prover-lhe de significação.

Só vivem para mim os meus fantasmas, e vamos assim entretendo uma relação que não se nutre tão-só de lembranças, mas também de uma certa alegria nostálgica, como uma nota cítrica de perfume ou o som de um oboé perdido entre a densidade de uma floresta. Essa nostalgia, que dá-me um pouco de Portugal, assenta-se na segurança de que eu vivi aquilo que meus amigos etéreos constantemente relatam. Eu estava lá e senti o que era agora recontado. Eu mesmo sou tal relato, confundido com uma mistura de melancolia e de saudades.

Então algo em mim torna-se muito real, e a insubstância dos meus transitórios amigos traz-me, por contraste, o real experimentado, adocicado, sensualmente dividido entre minhas conquistas e meus desejos. Não, eles não vem a mim dizer o que eu poderia ter sido, o que eu mereceria ter vivido ou o que eu pensaria ter feito. Contrariamente, recontam-me o que vivi e provei, trazem-me de volta a pulsar do desejo e da paixão.

Assim, embora acuda-me um sentimento de indisfarçável melancolia, vêm-me a certeza e o brilho do vivido, e talvez por isso mantenha junto a mim meus fantasmas, como se eles anunciassem o reinício do verão e o levíssimo ciciar das borboletas. HILTON BESNOS.

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