0193 – O movimento das marés

Tudo já era absolutamente conhecido. Os registros apenas ratificavam o que todos sabiam. No entanto, embora houvesse denúncias suficientes para mover céus e terras, não havia qualquer interesse em fazer com que os céus e/ou as terras se movessem, pois gente demais poderia ser desacomodada, aborrecida, importunada. Imagine, todas afluentes, influentes, com um pedigree inconfundível e com acessos ilimitados poderiam perder dinheiro, outras deixariam para trás prestígio e poder. Tais pessoas fizeram assim, um pacto mental, não escrito e mais do que conveniente de reciprocidade, um pacto comum, invisível, baseado na necessidade mais do que claro da manutenção do que já estava proposto. Enquanto denúncias fossem passíveis de ser acomodadas, procrastinadas, deixadas prá lá, empurradas com a barriga, e os interessados pudessem subornar, cooptar, corromper, chantagear, oferecer gadgets para que ninguém fosse prejudicado, haveria um equilíbrio de interesses que, em princípio dava uma certa impressão de instabilidade, mas que o passar do tempo mostrou que, aplicada a logística adequada, tenderia rapidamente à estabilidade. E de tal forma foi se solidificando que erigiu como normal uma situação na qual se requer um muito de favores e um pouco de argumentos. Enfim, havia um sistema em marcha, baseado unicamente na reciprocidade. Os canalhas aprenderam rapidamente como se exerce, na prática, a solidariedade.

Claro que alguns detalhes sempre necessitam ser constantemente  ajustados. O maior era a crescente rede que se estabelecia entre aqueles que tinham interesse em preservar o silêncio. Algumas poucas ameaças de delação espoucavam aqui e ali, mas nada que uma cota extra de dinheiro não resolvesse. A imprensa – ora, a imprensa! – também estava adubada com algumas influências que permitiam certos empréstimos de última hora e que eram tratados às gargalhadas nos gabinetes, chamados de hot money e pelo carinho fraterno que inflava verbas publicitárias entre algumas empresas, nacionais ou multinacionais, que viam aí um investimento político de longo prazo. A imagem é tudo, batiam palmas os mass media, enquanto o trem se mantinha nos trilhos. O tempo passava, havia um cheiro de felicidade no ar, com grandes quantias de dinheiro circulando livremente para lá e para cá, sem que ninguém se importasse muito, desde que tais dinheiros não vazassem ou extrapolassem as suas fronteiras estritas, cujos limites eram traçados au gabinet.

Um dia um operário foi executado pela polícia, que estava caçando traficantes. No dia seguinte, pessoas indiferentes ao Mercado se reuniram no local onde o proletário morreu, e fizeram uma homenagem. Alguém então subiu num engradado de cerveja e iniciou um discurso de conscientização. Quando a polícia chegou, todos haviam se dispersado. No dia seguinte, como em um planejado stand up, outra manifestação. E outra, um pouco mais além. Até que, de repente, algo começou a ruir. Parecia ser um movimento controlado nas cadências e passos da cidadania nas ruas. Um ideário inteiro parecia regressar de tempos já tão distantes que se custava a crer que alguém, de sã consciência ainda pensasse em libeerdade e apostasse em movimentos e culturas locais. No ponto de ruptura, tais manifestações começaram a ser pautadas pelos jornais, enquanto os mass media passaram  a dizer aos seus inefáveis clientes que seria interessante ligar a imagem institucional do empresariado a uma nova e avassaladora força política que, além de tudo, não poderia mais ser ignorada. A velha hipócrita chamada imprensa se encheu de botox e se travestiu de virgem virtuosa a favor das liberdades individuais. Era o que faltava.

Assim como as marés, a  (r)evolução, finalmente, começara. HILTON BESNOS.

PS: Escrevi esse texto em 25-11-2010. Parece-me, hoje um tanto quanto premonitório. HILTON BESNOS

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