0198 – Imbecilidade on demand

Há cerca de trinta anos atrás, eu habitualmente assistia Documento Especial – televisão verdade, na extinta TV Manchete, apresentado pelo ator Roberto Maya e dirigido por Nelson Hoineff, isso na década de 80. Em um  determinado programa o tema era a violência, e entrevistado, o saudoso sociólogo Betinho, irmão do Henfil e que mais tarde seria o detonador da campanha Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida,  disse estar convencido de que havia uma campanha mundial da mídia para imbecilizar as pessoas. Cada vez mais me convenço de que ele estava certo.

Embora todos nós saibamos que uma das funções dos meios de comunicação é o entretenimento, hoje assistimos a um fog imagético, no qual as celebridades (ou pseudo-celebridades) são diuturnamente um dos alicerces da mídia.  Basta lermos qualquer jornal,  em qualquer meio, e veremos como isso é real. Lembro de uma palestra do Frei Beto, aqui em Porto Alegre, quando o mesmo lembrava que na cidade onde nascera, durante sua infância e adolescência havia muito mais livrarias do que academias de fitness e que, com o decorrer do tempo, essa relação havia se invertido de modo dramático.

Vivemos uma época hedonista, em que o cultivo ao corpo e às suas formas desejáveis são uma das pontas do iceberg denominado consumo, a ponto de mexer com a identidade das pessoas. É claro que não sou contra a saúde, nem contra a geração saúde; o que noto, contudo é uma supervalorização da beleza, ou natural ou artificial, ou, em outros termos, o domínio da imagem sobre o conteúdo.

Por outro lado, é óbvio que um meio midiático é pressionado pelos vetores capitalistas, e que uma bela imagem vende muito, e isso movimenta o sistema de modo geral, onde muitos ganham e outros assumem o desejo de confundir sua própria imagem com a do personagem em tela, em exposição. A pergunta é, até que ponto seremos meros telespectadores passivos e passaremos a usar nossa capacidade de crítica? No que tal inércia contribui para que não nos assenhoremos de nossas vontades, para que construamos algo realmente melhor, levando em consideração a comunidade, e não apenas nossos próprios umbigos?

Talvez Betinho levasse em consideração todos esses aspectos, e bem mais do que eles, quando iniciou sua campanha a favor da cidadania; já em 1980, a inatividade social o incomodava; as pessoas aderirem à imbecilidade era uma hipótese concreta. Hoje, temos um mundo bem diferente daquele que o sociólogo explicitava: a sociedade mudou, mas determinados padrões colaboram, de modo intensivo, para que não desprezemos sua sugestão.

Havia um tempo em que o mercado se identificava apenas com o lucro auferido realmente, fruto da sua atividade-meio. Produzia-se, havia uma demanda, os produtos postos eram comprados, e assim o capitalismo buscava sua predominância sobre o socialismo, o comunismo e as ditaduras de estado. Era uma época de produtores. O estado, por sua vez, preocupava-se com a cidadania e com suas mazelas, o que gerou o welfare state, o estado de bem estar social, da aquisição dos direitos.

Atualmente o welfare state se degrada, por sofrer ataques constantes através de um capitalismo que passou a se notabilizar pela customização, pela enxurrada de produtos cada vez mais tecnológicos e “na medida” dos desejos dos consumidores e pela busca da simbiose entre identidade pessoal e consumo. Agora, dominar as mentes e as vontades é bem mais interessante do que, simplesmente mercanciar.

Prepara-se um futuro voltado para as corporações e mitifica-se a capacidade das mesmas em proporcionar-nos uma vida edulcorada e fantasiosa; de outra forma, incrementa-se a não capacidade crítica. A massa dorme embalada aos sons e às idéias que misturam o exótico, o virtual e se habituam a uma linha discursiva esteticamente linear, normalizada e normatizada, enquanto o mundo é (re) criado e lhe é servido on demand. HILTON BESNOS

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