0203 – Ouvidos de mercador

Ouvidos de mercador

Reconheço a incerteza e a insensatez de um mundo no qual as pessoas buscam se (re) construir de modo contínuo e às suas auto-imagens, para se sentir integradas e aceitas dentro dos nichos sociais, profissionais ou intelectuais que entendam devam pertencer.

Em uma sociedade de consumidores alienados, mesmo as pessoas se colocam como produtos, o que lhes afeta a própria identidade. Mais do que ter lido, observo mediações ilusórias em meio às mentiras comezinhas, aos olhares mortos, iluminados pela luz âmbar dos interesses, e, especialmente também me integro ao oceano de hipocrisia que parece sustentar a tudo e a todos, como um poder suprassocial que a tudo abarca.

Muitas das pessoas com as quais convivo parecem fazer parte de um carrossel de obviedades, onde a naturalização sem peias as traz como a cabresto, como uma marca de adoração. Tudo ao mesmo tempo e de modo fluido parece importar e desimportar; tudo é espaço aberto para negociações, lucros, perdas, investimentos, como se, de certo modo, todos nós estivéssemos em mercancia.

Convertidos em consumidores que a si mesmos consomem, temos pouco a (re) criar senão nossas próprias ilusões. Claro, aqui estou correndo o risco da generalização. Há muitas pessoas que são basicamente sinceras, dentro do espectro possível relegado à sinceridade dentro de um ambiente eticamente insalubre, no qual há uma interferência por vezes degradante entre o que é espaço público e espaço privado, entre o que busco especificar como área de cordialidade e área de negociação, entre direitos e deveres, entre gritos e sussuros.

A impressão é a de que o mundo todo mergulha em um fog de interdições normalizadas e normatizadas. É difícil manter o caráter, quando as circunstancias lhe convidam diuturnamente à canalhice institucionalizada e, talvez por isso, já naturalizada.

Sou assim convidado a me tornar, metaforica e socialmente, uma rede metabólica, na qual os contatos humanos nada mais são do que instâncias de ações-alvo. Just do it, é o sugere firmemente a Nike, e isso parece ser um padrão bastante claro de comportamento. Agir, sem reflexão, condenarmos nós mesmos a uma flutuação incessante, possivelmente dentro de uma quebra discursiva.

Se as reações metabólicas induzem o incessante desequilíbrio de energias que também define a vida, no dizer de Capra, convivo com um leque de dessintonias sociais que, ao mesmo tempo em que perdura, refaz-se dentro de um espírito de descarte e de mútuas exclusões.

Muitos nos parecem perigosos, nos parecem ameaçar; a impressão que temos é de que são estrangeiros misteriosos, envoltos em brumas, o que nos agudiza o sentimento de insegurança. Somente resta, pois, aguardar que haja um reciclar contínuo, uma permanente troca de atores, mas isso, todos sabemos, é irreal e impossível. Neste baile, dançar como se quer não é requerido, mas dançar como todos dançam é o minimamente necessário. Tal processo naturaliza e equaliza o que, de natural e de equalizador nada possui.

A hipocrisia sacraliza um laço que não deve e não pode ser desatado; ela quem nos aplaca as insatisfações, nos faz sorrir de modo conveniente, nos faz calar quando nosso caráter nos empurra resoluto para a beira do abismo. Renunciamos ao caráter, embora ele lateje e nos acuse a cada vez que o violentamos. Nos acostumamos, talvez demasiadamente, a sermos auto-complacentes conosco e judiciosos com os demais. Afinal, temos de nos defender e isso implica não apenas em aceitação, mas em submetermos nós mesmos ao controle de um status estabelecido. Não somos o que pensamos ser, mas agimos como se fossemos.

A toda contradição se agrega um pouco de realismo, algo que nos diz: “não faça isso”, “não vá por ali”, “pare”, “reflita”, “tenha coragem”, “arrisque-se”. Em resposta, mercadorias que somos, somente nos resta, ao fim e ao cabo, nossos infalíveis e inefáveis ouvidos de mercador. HILTON BESNOS.

 

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