0207 – Ignorância e consumo

Somos ignorantes, e não poderíamos deixar de ser. A ignorância, o não saber, faz parte de uma estrutura que, organizada em rede, nos ajuda a ignorar o mundo. Existe, sem dúvida, uma palavra básica para isso, e muitas intenções ocultas: a palavra é consumo e as intenções são aquelas nas quais nos aferramos para fazer parte do banquete por ele proporcionado.

Para Bauman, um dos primeiros sinais do consumismo exacerbado é a falta de solidariedade, portanto o estranhamento ao Outro. Para mais dimensionar a nossa ignorância a respeito do que acontece de relevante no mundo, temos a participação coesa da mídia escrita e falada e, além dela, de um mundo imagético, tudo isso marcadamente naturalizado para nos fornecer um ideário no qual as perguntas relevantes deixam de ser feitas, e, portanto, a reflexão igualmente não é realizada.

Nos retiram deliberadamente a capacidade de reflexão, de pensamento, e nos naturalizam o frívolo, o que já bai ser esquecido na esquina seguinte. Observe algum programa de televisão dedicado às massas e você terá claramente os standards de tal convite à inação intelectual e à quebra de valores. Quantas e quantas vezes você já não presenciou catástrofes acontecerem na frente dos seus olhos, e a clássica pergunta às vítimas de “como elas estão se sentindo” em tais momentos de extrrema e intensa dor? Quantas vezes você já não viu assuntos extremamente delicados e complexos serem tratados como se fossem uma receita de maionese? Quantas infindáveis vezes você já não se deu conta de que os temas, por mais instigantes que sejam, não duram mais que alguns parcos minutos, para depois se misturarem à sessões de entretenimento deprimentes?

Passamos, em minutos, de um assassinato rumoroso para um novo namorisco de ocasião entre celebridades, de uma grave denúncia para uma receita de pizza, de uma análise economica para uma fofoca apimentada, de um acontecimento político para a última foto nua de uma atriz que vazou para a internet.

O resultado disso tudo é que perdemos a capacidade de indignação, a não ser quando os nossos cartões de crédito revelam saldos proibitivos. A massificação, o fog de informações e a naturalização de sentimentos díspares, sem que tenhamos tempo suficiente de sequer entendê-los, nos coloca como hommo machina. Nossos desejos, nossos pensamentos são disparados como adrenalina, e não conseguimos mais entender o Outro, menos ainda a nós mesmos. Por isso, talvez, sigamos tendo tantos meios para nos comunicarmos mas um intenso receio de sermos autênticos, de escutarmos nossos pensamentos reais enquanto exprimimos o que desejam que expressemos.

Nesse sentido, somos tão somente orais. HILTON BESNOS

 

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