0209 – Polis

Polis

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daytime skyline of a city

Buenos Ayres, skyline

Escrito em 14 de outubro de 2006

Construo a minha vida na cidade: sou um passageiro de luzes, vozes e cheiros e corpos que abandonam a si mesmos e correm para as metrópoles. Meus trens são os metrôs e as minhas paisagens são os prédios, as pessoas que se movimentam no grande formigueiro das ruas, avenidas, vielas, passagens.. Não me incomoda habitar o que alguns chamam de selva de pedra, pois é ali que vejo a beleza da juventude, o nervosismo do tráfego, as luzes das praças e o verde dos parques.

Tive, tive sim oportunidades para conhecer o interior, a vida saudável e os campos abertos. Mas não quis. Prefiro ficar aqui, aqui mesmo, pois embora aspire muito monóxido de carbono, respiro as imagens, as inspirações e os textos que vão modelando um argumento, uma história que é tão corriqueira quanto inédita: a minha própria.

Viajar? Ah, sim, gosto muito, especialmente as que me levam a boas cidades: Porto Alegre, Curitiba, Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires. Gosto de andar pelas ruas, olhar as pessoas, mesmo que os passantes fluam como água ao meu redor. Fico assim, calmamente sentado em um banco de praça ou caminhando, imaginando formas e cores distintas nas árvores que me acolhem. Fico escutando as vozes, os seus tons, os seus ditos, as maneiras diferentes e deliciosas de se dizer o habitual, a maneira como a qual os dialetos, as falas, a música das palavras vai conduzindo um fio invisível de conhecimentos novos.

Grandes cidades: este o meu lar.

Estou à vontade nos ônibus. Ah, sim, o Médici disse que preferia cheiro de cavalo ao do povo, pelo menos é o que a minha memória denuncia. Eu, hein? Prefiro cheiro de povo ao dos ditadores que aprisionam, corrompem a liberdade e mandam matar, torturar, sinistrar. Talvez por isso eu não me incomode nem um pouco quando estou no ônibus, em meio ao povo, como uma pessoa que sabe que a grande semelhança entre todos nós é o fato de sermos todos tão diferentes. Tolerância para com os outros, reciprocidade: viver em meio aos outros, é o que aprendi morando na cidade.

Foi olhando os brancos como eu, os de olhos castanhos, azuis e verdes, os pretos, os asiáticos, os alemães que concluí que os russos são diferentes culturalmente dos poloneses, mas que a mamma italiana é no mínimo prima direta de uma bela iídishe mamme judia. Só na cidade grande, percebi que alguns andam só de ônibus e outros só de automóvel. O tempo todo. Aprendi o que significa proletariado vendo os operários e a grande massa de pessoas buscando um lugarzinho melhor no emprego, na arquibancada do estádio, na fila da previdência, nas escolas públicas, nos pontos de ônibus, na vida.

A cidade me ensinou também, do modo mais inequívoco possível, que existem classes sociais, embora hoje se discuta mesmo se tanto existe. Piada, claro que existem e que suas diferenças atendem mesmo pelos nomes: Carlos Gomes e Restinga em Porto Alegre, Morumbi e Jaçanã em São Paulo, Barra e Grajaú no Rio de Janeiro, Aldeota e Cidade dos Funcionários em Fortaleza são apenas alguns exemplos constrastantes que lembram bem e a todo momento se existe ou não diferenças entre a população.

Foi na cidade que aprendi o sexo, a fumar, a flertar, a amassar a namoradinha e a montar mil estratégias em busca do amor e da auto-imagem. Shows, cinema, teatro, dança. Cultura. Imóveis, bancos, financeiras, cartões de crédito, débitos e faturas. Dinheiro. Realizações, frustrações, angústias, medos, cursos, concursos, estudos, o cotidiano suspenso ali, no instante de decidir. Desejo.

Talvez porque a cidade seja a minha praia, eu sou assim, branco de dar dó.

Porto Alegre, Rio, São Paulo, Fortaleza, Curitiba, Buenos Aires, Brasília. Todas elas tem suas belezas, seus melhores e piores lugares, e especialmente as suas arquiteturas, retratos esculpidos de suas identidades culturais e dos povos que ali se fixaram e impuseram suas marcas ao território e aos costumes locais, marcos de suas histórias. Os povos vão ali instalando, implantando, relocando os humores, os perfis as cores e as faces que colorem as cidades e as fazem ser como são.

Assemelham-se às pessoas: tais como elas, as idades possuem seus pontos sensíveis, os bairros que vão mudando suas características, ou mantendo-as, passando de nobres para decadentes. Nós assim também fazemos em relaçao a nós mesmos. Nos entristecemos ou nos alegramos quando consultamos as nossas histórias pessoais, as opções que seguimos por aí, pela vida afora; talvez por isso nossos fluxos também nos lembrem as cidades. Não percebemos muitas vezes as sutis mudanças em seu dia-a-dia, os seus humores, as suas pequenas ou grandes modificações porque em nós mesmos poucas vezes somos tão atentos.

As cidades têm idiossincrasias herdadas.

Estamos imersos em dois tempos, um nosso, peculiar ao modo como procuramos nos assenhorar de nossos atos e omissões, de nossos pequenos ou maiores pecados e de nossos objetivos e projetos pessoais, e um tempo público ao qual, na maior parte do tempo, nos submetemos. Adormecemos em nossas inconstâncias e o despertador nos acorda, nos convoca, nos intima, nos pressiona a sermos homo faber.

A dimensão local nos mostra que a cidade assemelha-se a um aquário onde nos acostumamos passivamente a nadar, mas esse aquário, em realidade, é um braço de rio, e por isso, por mais que tentemos nos confinar em nós mesmos, as realidades, as coisas externas sempre vêm nos alcançar como as brisas dos mares, dos oceanos: megalópoles.

Somos em tudo a coragem do salto, a covardia da tentativa, a angústia da solidão, o prazer do amor, a doação da carne, a delícia do gozo e a intensidade dos nossos sentidos e sentimentos. Homo ludens.

De todo, mãe preciosa, sagrada mãe, a cidade nos acolhe e ao mesmo tempo nos expulsa. São pequenas as ruas da cidade quando estamos felizes, são enormes as esquinas quando ali encontramos nossos piores momentos. Somos em tudo eixos que parecem desconectar-se a si próprios e, no fim de tudo, há, de modo indistinto um tango, uma garufa em cada um de nós: Buenos Aires! HILTON BESNOS

 

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