0226 – A mãe e a puta

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Juniper Fitzgerald escreve um artigo poderoso para a Mutha Magazine.

 

Eu pertenço a uma classe de pessoas conhecidas apenas como putas. Nossas sombras se derramam sobre paralelepípedos noturnos, nossas vidas existem em sobras de filmes de pernas e bundas. Somos sociopatas ou vítimas infantis, dependendo de para quem você pergunta. Nossas mortes são emolduradas por supostas evidências de passados excitantes, ainda que sujos; a violência contra nós é um exercício em inevitabilidade. E nas raras instâncias em que a prudência e a virtude nos permitem um respiro de intimidade não adulterada, mantemos um olho aberto por causa do medo de perder tudo.

Um gotejar ansioso de homens paga para me ver, me tocar, me foder; meu corpo. Tetas e bunda e buceta, assim vocês chamam. Você – o jovem jejuno com queda para desempenhar virilidade. Você – o homem empurrando seu filho adolescente aos braços cuidadosos de uma puta. Você – o empresário, o agricultor orgânico, o professor que não é “como os outros caras”. Você vê em meu corpo fértil aquilo que você cobiça obsessivamente, a mais fundamental de todas as necessidades humanas – O Maternal como solo rico e nutriente. Você me deseja como um menininho, mas a sua toxicidade o impede de amar de verdade. E quando eu trago minha filha recém-nascida para meu seio na suavidade da manhã-cedo, sou incomodada com a sua falta de reverência pelas minhas partes que sustentam vida. Eu demandaria que você se inclinasse e adorasse, mas você provavelmente transformaria isso em material para masturbação.

E ainda assim, apesar da sua desprezível desatenção pela mágica pura e absoluta de minhas tetas e minha bunda e minha buceta, eu acho que o trabalho sexual é verdadeiramente a minha opção mais viável (não que minhas razões para fazer qualquer coisa sejam da porra do seu interesse, de qualquer maneira). Sou a Madona e sou a puta, spank you very much [brincadeira verbal que mistura “muito obrigada” com “muito tapa na sua bunda”].

A questão com as putas, sabe, é que nós estamos sempre, sempre na putaria. Como diz a narrativa pornificada, do lixo do trauma na infância nasce uma perversão de puta, insaciável e perversa. Nossa perversão morde a carne doce de meninos bonzinhos e homens casados. Nós não podemos evitar, entende. Portanto, certamente não surpreende – embora não seja menos ridículo – que um coquetel de sexualidade inescrupulosa com um toque de maternidade deixe o gosto mais amargo na boca pudica da cultura. Perece menos surpreendente que filhos de putas sejam tornados propriedade exclusiva do Estado, atormentado pela causa da “pureza”. Não é hipérbole: isso acontece o tempo todo.

Então, aqui estou eu. Sou uma puta com uma criança. Uma filha, apesar de tudo, que certamente vai se ressentir das travessuras sexuais extravagantes da mãe, se é que a sociedade tem algo a dizer sobre isso. E é claro, isso desde que minha menininha não seja tirada de mim antes.

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Minha filha. Meu lindo bebê. Ela tem uma cabeça de cachos rebeldes e um espírito combativo para combinar. Sua respiração é ao mesmo tempo almiscarada e doce, um buquê de leite e mirtilo. Recentemente ela aprendeu a rosnar e gosta de praticar sua técnica toda noite às 4h. Quando a seguro em meus braços, abraço-a com a vontade da impermanência. Meu amor incondicional por esse humano extraordinário tem raiz em uma apreciação infinita – um tipo de apreciação conquistado com dificuldade a partir de uma vida adulta mergulhada em profanidade. E por esse crime de blasfêmia sexual eu tenho que pagar com cada relacionamento que eu formo, inclusive o mais sagrado de todos eles – o relacionamento com minha filha. Vivo no medo constante de que um dia serei considerada uma mãe incapaz. Talvez ainda mais perturbador seja o medo de que ela venha a achar meu amor impróprio; que a narrativa da puta inescrupulosa se infiltre nas memórias de minha afeição e que ela venha, de alguma maneira, sentir nas camadas de minha adoração um elemento de exploração. Uma puta não pode fazer cócegas em sua criança com a trivialidade de uma Madona desencarnada e dessexualizada. As intenções de uma puta são sempre interrogadas, suas ações quase sempre consideradas lascivas. Quando faço cócegas nessa criaturinha, esse ser humano magnífico que uma vez viveu dentro das dobras de minha carne, eu o faço de modo hesitante. Afinal de contas, sou sócia de carteirinha da categoria subumana dos pervertidos. Minha afeição pode parecer suspeita às sensibilidades puritanas de parlamentares e de seus cafetões. Quando uma mulher não pode nem mesmo usar leggings sem que sua moralidade seja questionada, surpreende que sua vida sexual e/ou de trabalho seja deploravelmente examinada, especialmente se ela é mãe?

Bella Robinson comenta:

A ajuda está a caminho.

Quero contar sobre um caso especial que será apresentado em tribunal federal contra os procuradores distritais da Califórnia e o procurador-geral da Califórnia, por violação dos direitos constitucionais de indivídulos que buscam o direito de ser pagos por ou dar pagamento em troca de contato íntimo privado. Essa conduta é atualmente criminalizada como prostituição na Califórnia.

Esse caso está sendo patrocinado pelo Projeto Legal, de Educação e Pesquisa de Provedores de Serviços Eróticos, um grupo diverso e sem fins lucrativos, baseado na comunidade de provedores de serviços eróticos, e membros da comunidade que trabalham pelo empoderamento por meio do avanço dos direitos à privacidade sexual. Uma maneira de fazer avançar os direitos de privacidade sexual é lançar um caso de impacto, como esse do qual vou falar.

Até agora, eles têm um advogado top, que te, experiência em defender esse tipo de caso constitucional diante da Suprema Corte dos EUA. Ele é um especialista, de modo que é claro que é bastante caro, mas achamos que vale a pena.

E há os demandantes. As mulheres demandantes representam as pessoas que querem afirmar seu direito de ser contratadas para prover contato íntimo, o que atualmente é criminalizado sob a lei antiprostituição. São mulheres comuns que têm filhos, famílias, passatempos e vidas fora do trabalho, como todo mundo. Elas só querem criar suas famílias e viver em paz, com acesso a proteção igual perante a lei, como todo mundo.

E há o demandante cliente, que se apresentou para defender o direito de pagar por contato íntimo privado. Ele quer o direito de contratar conforto sem ser preso por prostituição.

O caso também vai demandar o direito de associação e o direito de organização sem medo.

O tipo de alívio que estamos buscando do tribunal será acessível a outros em todo o país, para impedir que acusações criminais injustas sejam apresentadas e para impedir a polícia de prender provedores de serviços eróticos e, ao invés disso, obrigar os procuradores a prover proteção igual de acordo com a lei.

O caso no tribunal poderá ser resolvido em um ano, ou demorar vários anos. Muitas pessoas se apresentaram e contribuíram para esta causa até agora, mas mais ajuda é necessária. A esperança é de que com a sua ajuda nós acabemos ainda nesta geração com o estigma social negativo e a resultante discriminação em moradia, emprego, educação, custódia de crianças e acesso a instituições financeiras causados pelo fato de exercer conduta íntima privada remunerada. Nossos direitos constitucionais são direitos humanos e precisam ser garantidos AGORA! Agora é o momento!

Para aqueles que ficam dizendo que o mau tratamento de trabalhadoras sexuais pelo sistema judicial não está correto, esta é a sua chance de fazer uma contribuição e de nos ajudar a dar esse passo histórico, fazendo uma doação anónima e dedutível.

https://liberatetoemancipate.tilt.com/liberatetoemancipate

Aqui está o processo:

http://esplerp.org/here-is-the-brief/

E onde, ó onde estão minhas amorosas irmãs feministas? Onde estão as radicais, as bichas intransigentes e os pervertidos que prefeririam ter empatia por uma mãe puta a defender a prisão dela? Onde estão os anormais marginalizados que se lembram de Stonewall e do papel que as putas desempenharam ali? Os anticapitalistas que resistem ativamente ao complexo industrial-militar ao invés de clamar, como muitas feministas fazem agora, que é essencial encurralar e eliminar desviantes sexuais? Aqui, não estão. Aqui no Cinturão da Bíblia da América, onde putas atendem a policiais e religiosos com o fervor de servas medievais, enquanto “feministas” tentam nos esclarecer – a nós putas – com os punhos de palavras de classe média. “Consciência de classe”, “dignidade humana”, “independência da degradação” – tudo isso fede a políticas de respeitabilidade. Acredite: uma festa burguesa para exibição de filmes “antitráfico” não vai me salvar da pobreza, não importa quão degradada você tente me convencer de que eu sou. E isso não vai me armar com a comunidade política e socialmente radical de que eu preciso para combater o Estado. O Estado – determinador exclusivo de minha suficiência maternal. O Estado – ao mesmo tempo material e ilusório; meu laço maternal sagrado está inteiramente ditado pelos caprichos dessa instituição. O Estado – inteligentemente construído para atender àqueles para quem a presença dele é inevitável.

Que uma instituição social, política e econômica tenha o poder de considerar meu comportamento sexual “incompatível” com a maternidade é de fato uma caricatura humana (e se você não acredita em mim, pergunte à sua mãe). Mas não é simplesmente a má vontade de uma estrutura inócua, já que estruturas são feitas de humanos e humanos são feitos de todo tipo de má ideia. Como o sociólogo Max Weber apontava no fim do século 19, o Estado tem o monopólio sobre o uso legítimo da violência. O Estado como instituição violenta foi iluminado pelos recentes assassinatos sancionados pelo Estado de John Crawford, Eric Garner, Michael Brown, Tamir Rice e outros. Mas de alguma maneira, levar embora os filhos de uma puta simplesmente porque ela é puta continua a ser aceito de forma acrítica, mesmo entre feministas. E com o crescimento dos lucrativos esforços religiosos “antitráfico”, muitos deles com interesse material em desacreditar putas, não me sinto especialmente otimista.

Juniper é empregada com remuneração pelo “Original” Dread Pirate Roberts. Ela escreve para Tits and Sass e algumas outras publicações radicais, mas em geral passa o tempo sob seu manto de invisibilidade. Ela está tentando ensinar sua filha a grunhir “Viva Satã” em público.

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