0251 – O cérvix da questão

0250 – coluna

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O CÉRVIX DA QUESTÃO | O machismo e a competição feminina

Como meninas de 9 anos conseguem identificar e punir vagabundas? Por Clara Lobo

Dias atrás, uma amiga me confidenciou ter ouvido, no vestiário do dojo de artes marciais que frequento, uma conversa de quatro moças sobre a minha pessoa. Elas comentavam que eu era uma vagabunda por ter feito sexo com um dos colegas. Puseram-se a enumerar meus outros defeitos: eu era feia, não tinha peito nem bunda… enfim, elas não entendiam o que o rapaz vira em mim. Duas delas namoravam colegas do dojo, o que, no meu parco e parvo entendimento, fez-me crer que elas também tivessem feito sexo com eles, mas quem sou eu para alegar tal similitude de ações se eu era indubitavelmente a vagabunda, enquanto elas, indubitavelmente, não?

Confesso-lhes que aquilo não me surpreendeu minimamente. Primeiro, porque já ouvira disparates semelhantes sobre outra frequentadora. Segundo, porque já ouvira conversas similares em outros lugares, outras situações, vindas de outras mulheres sobre outras mulheres. Seu marido te traiu? Culpa daquela vagabunda. Seu namorado olhou pra bunda de outra mulher? Também, com essa roupa de biscate… Uma colega de trabalho conseguiu a promoção que você almejava? Aquela vagabunda deu para o seu chefe, óbvio.

Uma lúcida amiga sempre me diz: “Temo as mulheres que chamam outras de vagabundas”. Eu também. Internalizar o machismo, do qual deveríamos nos livrar, por não saber lidar com a nossa própria insegurança ante o (possível) desejo sexual do macho é comportamento que vejo com frequência na mulher heterossexual. Infelizmente, meter-se na vida dxs outrxs a fim de difamar ou depreciar a imagem de outra mulher é prática corriqueira em ambientes de trabalho, rodas de amigas, vestiários de academia. A mulher que deseja ser a menina dos olhos do homem, a preferida (seja do pai, marido, chefe ou colega), não vê problema em submeter a outra, considerada rival, a julgamentos enviesados e condenações baseadas em maledicência gratuita e mesquinha.

Não é absurdo que isso assim seja? Que mulheres se submetam de tal forma ao olhar do outro, especificamente ao masculino, que passem a utilizar o que há de pior nele para oprimir outra mulher? Que sua relação com mulheres seja marcada por rivalidade e intriga? Que sua insegurança seja tamanha que ela só seja capaz de tomar o lado de uma mulher se a outra não for considerada uma ameaça sexual? E, o pior: que essas atitudes não sejam questionadas, mas vistas como usuais, como naturais? Quantas vezes já ouvimos o famigerado “mulher é assim mesmo”? Como se estivessem inscritas em nossa carga genética a insídia e a competição patológica…

Quando criança, certa vez fui brincar no play usando o uniforme do coral da escola: camiseta e calças brancas. Uma das meninas me acusou de estar vestida de branco com o intuito de deixar transparecer a minha calcinha. Eu tinha 9 anos. Ela, 10. Lembro-me de ficar constrangida, de me justificar: “Vim direto da escola, este é o uniforme”. No dia seguinte, um grupo de meninas cochichava contra mim. Ali, fui provavelmente chamada de vagabunda pela primeira vez. Pergunto-me: de onde vem isso? Como meninas de 9, 10 anos conseguem identificar e punir vagabundas? Com quem aprenderam este comportamento? Com as mães? Com as irmãs mais velhas? Com as amigas? É possível que esse comportamento passe da mãe à filha, que, mesmo ainda sem saber direito o que é sexo, intuitivamente reconheça suas potenciais rivais e passe a vida repetindo e solidificando essa conduta.

O que ninguém parece perceber é que esse comportamento é cultural e, como fruto de uma cultura, pode ser transformado. Nós podemos ser melhores do que isso. Podemos deixar de ser reféns de impulsos mesquinhos e retrógrados, deixar de ser coniventes e participantes de uma sociedade que ainda – inacreditavelmente – pune as mulheres por serem senhoras de si mesmas. Que nega o machismo enquanto o dissemina de forma difusa e sub-reptícia. Que considera o feminismo algo fora de moda e desnecessário. Mas, para isso, cada mulher deve olhar não só as outras, mas a si própria de forma diferente. Perguntar-se “de que tenho medo? Por que tenho ódio? Por que não (a) suporto?” é um dos primeiros passos.

Pensem nas adolescentes que ainda sofrem bullying das colegas de escola por serem tachadas de galinhas, putas ou coisa similar. Nos Estados Unidos – em 2013, pelo amor de Deus! – meninas têm se suicidado por esse motivo. Esta semana, li sobre a terceira adolescente estadunidense que se mata num período de seis meses. Em todas as três histórias, algo em comum: elas lutavam contra o estigma de sluts, foram ostracizadas pelos amigos (amigas!), perseguidas e humilhadas pelxs colegas, e finalmente resolveram colocar um ponto final na história por meio do suicídio.

É triste que nós, mulheres, abracemos voluntariamente o papel de carrascos para solidificar ainda mais uma visão de mundo que nos oprime e nos divide, contra a qual tantas mulheres (e homens!) lutaram historicamente, e que beneficia somente a instituição patriarcal. Como feitores negros que açoitavam e puniam suas/seus compatriotas escravxs, voltamo-nos contra xs nossxs para agradar quem nos quer enjauladas. É preciso que mudemos, e que esse ranço machista não se transmita às novas gerações, para que nem mais uma única mulher seja vilipendiada por usar o seu corpo – aquele que Deus lhe deu – como bem quiser e entender.

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