0259 – Por que assistir novelas

March 2, 2015

“Pai, qual a graça de ver novela?”, perguntou meu filho menor. Pensei e respondi: “O jeito como contam a estória, cheia de imagens na televisão, como se fosse um filme.” Depois refleti sobre o assunto. A graça de ver novela é a mesma de se ouvir uma estória bem contada, seja pelo pai, pela mãe, pelo amigo ou por quem tenha sensibilidade para nos tocar com o que tece em palavras. Apreciamos boas estórias, nos envolvemos e participamos intensamente das mesmas. Nossos sentimentos são tocados e nos posicionamos diante das narrativas; ora somos a favor de uns personagens, ora de outros; de todo modo a vida também é assim e fazemos a todo momento o papel de juízes e de julgados. Talvez o nosso envolvimento seja uma prova de que somos parte de uma realidade na qual muitas vezes também somos personagens, com todos os defeitos e virtudes que os romances insistem em muitas vezes camuflar. A questão é que a realidade na qual somos personagens não é virtual…

A virtualidade é o que é falsamente real, e nos habituamos a viver com o falso, na medida em que os meios de persuasão e do espetáculo nos fazem conviver a todo o momento com algo que esperamos e banalizamos: o de sempre. Cada vez menos nos tocam notícias que envolvem guerras, tráfico, grandes desastres e tragédias, porque nos habituamos aos mesmos, banalizamos a informação porque a confundimos com uma grande novela, um enorme espetáculo. Passamos de um show no Carneggie Hall para a fome na África; de protestos políticos na Europa para o último lançamento de um novo automóvel, de uma nova pizza ou do mais recente avanço tecnológico de um celular; olhamos um anúncio de uma TV LCD e, segundos depois, apreciamos um jogo pelo campeonato nacional, enquanto, em outra emissora qualquer nos são apresentadas as novas tendências fashion em sapatos, jóias, viagens ou qualquer outra coisa que possa nos chamar a atenção: necessidades falsas são criadas a todo instante e não precisamos sair de casa porque podemos ter todos os deliverys que pudermos pagar.

E no meio deste grande fog informativo e informático, vem uma novela. Talvez aí seja o momento reservado especificamente para a nossa história noturna, aquela que nossos pais contavam e que nos embalava. As novelas são olocus do envolvimento com alguma coisa, visto que o que aconteceu antes e o que acontecerá depois cairão naquele limbo inexpressivo, expressão máxima da nossa passividade, da nossa falta de interesse, do nosso individualismo e da nossa cada vez mais desenvolvida incapacidade crítica. A novela é o que nos importa, e além dela, talvez um ou dois tópicos que nos chame mais a atenção, de acordo com o instante volátil que estamos ou estaríamos vivendo. É-nos muito necessária a estória, como se fora um déja vu em relação a nós mesmos, como se naqueles momentos, estivéssemos resgatando o que efetivamente somos.

Por isso é tão bom assistir novela. É a nossa hora de catarse, o momento em que não somos indiferentes, escapistas ou desatentos. É ali que estamos referenciados, que pensamos e dizemos o que gostaríamos de dizer ao outro e não temos coragem; é na trama e no seu desenvolvimento que nos reconhecemos como seres não patéticos, buscando dar coerência e coesão aos discursos do dia-a-dia, às discussões sem sentido e a nossa visão de mundo. Uma vez esgotado o capítulo, só nos resta aguardar o dia seguinte, nossa dose diária de humanização e de envolvimento com nossas próprias idiossincrasias. Talvez por isso o resto todo precise ser um espetáculo: para nos lembrar do nosso papel de espectadores, enquanto aguardamos, ansiosos, o próximo beijo. Ou assassinato. HILTON BESNOS

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